Um dia desses no passado simbólico da lembrança de um brasileiro comum, carioca, trabalhador, presenciando um ato cotidiano que nós legitimamos quando nos calamos diante da pena de morte que silenciosamente acontece nas esquinas das ruas da cidade. Esta lembrança é um fato histórico, faz parte da memória subjetiva de um outro, mas que permeia a nossa mentalidade, está presente no senso comum, se faz fato a partir do momento que podemos conceber como realidade de qualquer cotidiano de uma grande metrópole. E assim proseguimos escavando a memória individual para compreender o mundo que criamos no nosso cotidiano de hoje.Um dia baldio de um mês qualquer nos anos de mil novescentos e noventa e alguma coisa, um homem sozinho tenta de forma frustrada assaltar uma farmácia dentro do shopping Rio Sul, na zona sul da cidade. Ai sair correndo pela entrada do shopping o homem é perseguido por um policial militar, que holywoodianamente sai a captura do bandido em meio a luz do dia, tendo como platéia deste espetáculo o cidadão comum, carioca, urbano, perfumado, com suas grifes que vestem seus corpos e consecutivamente garantem sua inclusão e cidadania na sociedade do consumo.Esta platéia logo se alvoroça, extasiada, de forma sádica e como que identificados coletivamente com a vítima do assalto, sentem-se agredidos pois, nestas horas percebemos que o imaginário social está presente. Todos começam a querer linchar o bandido. Há algo que precisamos observar nesta situação. A crise da pós-modernidade é uma das causas deste fenômeno. A falência das grandes visões de mundo, tanto religiosas (cristianismo) quando políticas (socialismo e capitalismo), causam esta orfandade existencial onde as pessoas tendem a apergar-se a qualquer coisa que proporcione este sentimento de coletividade perdida nesta época onde os pensamentos e as paxões são líquidas. Quando presenciamos a vitória do mocinho sobre o bandido, sentimos como se todos fôssemos salvos juntamente à vítima que estava lá, atrás do balcão da farmácia. Vivemos a crise da coletividade e saída para esta crise parece ser o sacríficio de bodes e ovelhas simbolizados na figura do marginal urbano.Diante do carnaval que se formou naquele momento, o policial se encontra diante de um dilema. O clamor coletivo pede o linchamento do bandido, que ali, totalmente excluído de qualquer amparo jurídico e sujeito a insanidade da massa, que urge pelo seu sangue como forma de aplacar a ira de um deus que não é deus se não houver sangue e sacrifício. Mas o policial sabia que não poderia entregar aquele preso a sanha da massa inflamada, ao mesmo tempo em que se instaurou um mal-estar e certo constrangimento em deixar o deus do tempo presente sem seus sangue sagrado. Pendurado em uma corda fina, onde de um lado está o bmo senso e a racionalidade das instituições falidas da nossa sociedade, e do outro, a irracionalidade e o desejo mimético (GIRARD) manifesto na gana pela cabeça do marginal, o policial encontra o meio termo: A luz daquelas pessoas ele conduz o bandido para trás de um beco próximo, e o que desfecho é o som do disparo da sua arma e o alívio dos presentes naquele momento. Ao retornar, nosso herói e sua epopéira urbana, é condecorado pelo sorriso e pela satisfação manifesta no rosto das pessoas e seus cumprimentos, dando a ele o status de herói, que como um Robocop carioca, sai novamente a caça de mais criminosos.Passados dez anos este mesmo policial retorna ao espaço público através da manchete de um jornal. Ele é responsável por balear um passageiro em um táxi em plena luz do dia, durante a perseguição de dois assaltantes em fuga. O motivo do disparo foi que, durante a perseguição, um dos assaltantes tomou uma direção oposta do outro, e o policial não percebendo esta estratégia de fuga, parte em direção daquele que tenta entrar no táxi junto com um passageiro. Ao ver aqueles dois homens no banco de trás, o grande herói dispara sua arma e mata o bandido e um cidadão de bem. Aquele mesmo cidadão que arqueológicamente podemos resgatar na memória daquele fato ocorrido no shopping Rio Sul.Um destes repórteres investigadores resolve trazer a luz aos fatos, escavando aquilo que até então estava omitido em todo este enredo: A identidade do homem morto no primeiro assalto. Aquele, que foi silenciado no beco atrás do shopping. Quem era este homem? Será ele mais um José das Couves? Lembro do moleiro italiano de "O queijo e os vermes", clássico da historiografia contemporânea de Carlo Ginzburg, que retrata através da vida de um moedor de cereais na itália renascentista perseguido pela Inquisição. Ginzburg tenta chegar na Inquisição através da vida de um homem comum. E nós onde pretendemos chegar com essa história?
Pretendemos chegar a uma realidade onde não mais é possível perceber os dualismos que insistimos em sustentar. Todos somos vítimas e assassinos nesta história. Morremos com os filhos das vítimas mas também apertamos os gatilhos das armas que tiram as vidas. Somos leitores e autores de tudo que está ao redor. Somos leitores quando nos identificamos com as vítimas dos crimes, como o assalto da farmácia, assim como da mesma forma, somos autores de assassinatos feitos por policiais, feitos justiceiros como nas HQs por nosso desejo de vingança coletiva. E tudo isto de forma silenciosa e bárbara, empurra para debaixo do tapete um mundo de possibilidades de compreender a realidade da vida. E tudo isso incomoda muito quando descobrimos, como Ginzburg, outras formas de recuperar o passado. ´
O repórter curioso, que fuçou a vida daquele primeiro bandido, descobriu um mundo que nós não queremos ver. Aquele homem até o instante da prisão e morte pelas mãos do policial, não possuía sequer ficha na polícia. Estava desempregado com o filho doente em casa. Não vou aqui justificar o assalto e nem tecer qualquer tipo de julgamento. Para este trabalho existe um tipo de profissional que surgiu na antiga Galiléia, no primeiro século, onde homens de família gostavam de jogar pedras em prostitutas sem família.
E nestes dias a mídia trouxe mais uma vez a história de uma morte que novamente, alimenta nosso desejo por sangue e sacrifício. Entra em cena a razão institucionalizada, cumprindo seu papel de fazer a roda rodar, através da perícia que irá escavar até mesmo os pelos dos gatos que morreram do coração por passarem no local no momento exato dos disparos. Também serão examinadas as penas dos pombos e o sangue das formigas esmagadas no coturno dos policias. Tanta ciência e razão para anestesiar o nosso desejo de reconciliação inalcançável.
Por trás da morte deste menino existe um universo de realidades que precisamos encarar. A justiça cega e perdida diante de laudos de laboratório e da jogatina política do Estado, irá agora, como nos outros casos, se esforçar a fim de satisfazer o desejo de sangue e sacrifício exigido pelo deus do tempo presente, que vive e se manifesta em cada um de nós.
(Carlos Henrique).
10 julho, 2008
23 junho, 2008
A VIDA E A MORTE NA DANÇA DO SEM SENTIDO
Por Glauco Kaizer
Enquanto os “grandes” líderes mundiais investem trilhões de dólares na indústria da morte (fabricação de armas e afins), milhares de pessoas em todo mundo são inapelavelmente dizimadas pela fome. Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz, o aumento nesse nefasto investimento chegou à monta de 1,34 trilhões. E nesse fúnebre mercado, o USA segue líder no ranking da venda e da manutenção da morte. Soma-se ainda o fato de que a maioria das nações que infelizmente participam desse ranking são “cristãs”, i.e., tem Jesus Cristo como fundamento de sua fé (Bem aventurados os pacificadores...).
Vivemos na era da barbárie e do sem sentido. Quem poderia pensar que presenciaríamos a banalização completa da vida em função do interesse inescrupuloso de uma minoria ensandecida pelo projeto do capital?
Na dança do sem sentido, vivos e mortos não se distinguem. Uns porque já descansam à sombra da morte; outros por fazerem sombra para morte, que tranquilamente descansa em cada consciência que finge não percebê-la.
Enquanto os “grandes” líderes mundiais investem trilhões de dólares na indústria da morte (fabricação de armas e afins), milhares de pessoas em todo mundo são inapelavelmente dizimadas pela fome. Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz, o aumento nesse nefasto investimento chegou à monta de 1,34 trilhões. E nesse fúnebre mercado, o USA segue líder no ranking da venda e da manutenção da morte. Soma-se ainda o fato de que a maioria das nações que infelizmente participam desse ranking são “cristãs”, i.e., tem Jesus Cristo como fundamento de sua fé (Bem aventurados os pacificadores...).
Vivemos na era da barbárie e do sem sentido. Quem poderia pensar que presenciaríamos a banalização completa da vida em função do interesse inescrupuloso de uma minoria ensandecida pelo projeto do capital?
Na dança do sem sentido, vivos e mortos não se distinguem. Uns porque já descansam à sombra da morte; outros por fazerem sombra para morte, que tranquilamente descansa em cada consciência que finge não percebê-la.
08 junho, 2008
Conferência com José Comblin
Por Glauco Kaizer
Ontem, 07 de junho, tivemos a belíssima oportunidade de participar de um encontro com o teólogo, padre José Comblin, residente no país há várias décadas e um dos grandes conhecedores dos problemas teológicos e eclesiais da América Latina. O encontro foi organizado pela Diocese Anglicana do Rio de Janeiro (Centro de Estudos Anglicanos – CEA) e foi realizado no templo Martin Luther - Igreja Luterana, rua Carlos Sampaio, 251 - Praça da Cruz Vermelha.
O evento contou com a participação de membros das diversas igrejas cristãs. Foi uma celebração à Fé em Jesus Cristo e ao diálogo ecumênico.
O Encontro de Formação e Diálogo Transreligioso reuniu-se sob o tema: “O Jesus que existiu é o Cristo em quem acreditamos?”. Comblin fez a grave advertência quanto a recorrente prática de se usar a religião cristã como difusora de uma ideologia de poder e da legitimação deste. Segundo ele, o problema básico dos pobres é, desde Constantino, a ideologização da imagem de Jesus como legitimadora de poder.
A participação dos leigos foi efetiva. No entanto sentimos a falta dos estudantes de teologia (havia apenas uns poucos). Não é todo dia que temos a oportunidade, GRATUITAMENTE, de escutar teólogos de tal envergadura. Entretanto foi um grande acontecimento para o pensar e fazer teológico como também para o diálogo ecumênico.
Ontem, 07 de junho, tivemos a belíssima oportunidade de participar de um encontro com o teólogo, padre José Comblin, residente no país há várias décadas e um dos grandes conhecedores dos problemas teológicos e eclesiais da América Latina. O encontro foi organizado pela Diocese Anglicana do Rio de Janeiro (Centro de Estudos Anglicanos – CEA) e foi realizado no templo Martin Luther - Igreja Luterana, rua Carlos Sampaio, 251 - Praça da Cruz Vermelha.
O evento contou com a participação de membros das diversas igrejas cristãs. Foi uma celebração à Fé em Jesus Cristo e ao diálogo ecumênico.
O Encontro de Formação e Diálogo Transreligioso reuniu-se sob o tema: “O Jesus que existiu é o Cristo em quem acreditamos?”. Comblin fez a grave advertência quanto a recorrente prática de se usar a religião cristã como difusora de uma ideologia de poder e da legitimação deste. Segundo ele, o problema básico dos pobres é, desde Constantino, a ideologização da imagem de Jesus como legitimadora de poder.
A participação dos leigos foi efetiva. No entanto sentimos a falta dos estudantes de teologia (havia apenas uns poucos). Não é todo dia que temos a oportunidade, GRATUITAMENTE, de escutar teólogos de tal envergadura. Entretanto foi um grande acontecimento para o pensar e fazer teológico como também para o diálogo ecumênico.
03 junho, 2008
Até logo Laécia!
Por Glauco Kaizer
Há uns meses atrás uma homenagem foi prestada à memória do professor Antonio Gouvêa Mendonça, importante teólogo, sociólogo e escritor. Homem que dedicou sua vida aos estudos e a pesquisa científica, sobretudo, dos caminhos percorridos pelo protestantismo em sua instalação em solo brasileiro. Homenagem essa muito mais do que justa.
Hoje prestamos nossa homenagem a uma pessoa que não escreveu seu nome nos anais da pesquisa cientifica, mas o escreveu em nossos corações e em nosso pensamento, que não cansam de chorar sua falta e sua saudade. Escreveu sim! E não há quem tenha convivido com Laécia, mesmo que poucos momentos, que não sinta-se minguado de um pedaço importante de sua própria história e de sua existência. Afinal de contas ninguém existe só e para si mesmo. E quem pensa dessa maneira é um espectro, é incorpóreo; ou melhor... não é.
Comungamos a mesma saudade e por meio dela fazemos nossa homenagem a alguém que comeu conosco, sorriu conosco, se indignou conosco; mas também se emocionou quando de nossos infortúnios tomou partido, fazendo-se presença apaziguadora; que sentou pelos cantos desse tão grande espaço e conversou conosco a respeito de pretensões urgentes, do destino dos homens; mas que, no entanto, com uma profunda leveza se entregava as amenidades.
Nosso silêncio revela a grande reverência e perplexidade que ainda temos diante da morte. Contudo, quem vive a experiência do amor mediante à pessoa de Jesus não experimenta a morte. Não a morte como aniquilação de toda esperança; não a morte como desespero; do contrário, a morte é senão a finalidade que serve à plenitude.
Nunca estamos preparados para uma verdadeira despedida. Estamos acostumados com o “até logo”. E é assim que nos despedimos postumamente de nossa saudosa amiga e irmã Laécia: até logo! As palavras de amor e de afeto que, por um motivo ou por outro, não as dissemos, as entregamos agora no silencio de nossa contrição, como reverência a sua memória.
Nossa amiga-irmã foi recostar-se à sombra do mistério. E dela agora o mistério se ocupa mais de perto, acolhendo-a com sua doçura e com seu afeto. Ele a chama de seu pequeno lírio, objeto e sujeito de seu intenso cuidado. E lá, recostada à sombra do mistério, nossa saudosa amiga, à aurora derradeira, tranqüila e serena, é acalentada e acolhida.
Há uns meses atrás uma homenagem foi prestada à memória do professor Antonio Gouvêa Mendonça, importante teólogo, sociólogo e escritor. Homem que dedicou sua vida aos estudos e a pesquisa científica, sobretudo, dos caminhos percorridos pelo protestantismo em sua instalação em solo brasileiro. Homenagem essa muito mais do que justa.
Hoje prestamos nossa homenagem a uma pessoa que não escreveu seu nome nos anais da pesquisa cientifica, mas o escreveu em nossos corações e em nosso pensamento, que não cansam de chorar sua falta e sua saudade. Escreveu sim! E não há quem tenha convivido com Laécia, mesmo que poucos momentos, que não sinta-se minguado de um pedaço importante de sua própria história e de sua existência. Afinal de contas ninguém existe só e para si mesmo. E quem pensa dessa maneira é um espectro, é incorpóreo; ou melhor... não é.
Comungamos a mesma saudade e por meio dela fazemos nossa homenagem a alguém que comeu conosco, sorriu conosco, se indignou conosco; mas também se emocionou quando de nossos infortúnios tomou partido, fazendo-se presença apaziguadora; que sentou pelos cantos desse tão grande espaço e conversou conosco a respeito de pretensões urgentes, do destino dos homens; mas que, no entanto, com uma profunda leveza se entregava as amenidades.
Nosso silêncio revela a grande reverência e perplexidade que ainda temos diante da morte. Contudo, quem vive a experiência do amor mediante à pessoa de Jesus não experimenta a morte. Não a morte como aniquilação de toda esperança; não a morte como desespero; do contrário, a morte é senão a finalidade que serve à plenitude.
Nunca estamos preparados para uma verdadeira despedida. Estamos acostumados com o “até logo”. E é assim que nos despedimos postumamente de nossa saudosa amiga e irmã Laécia: até logo! As palavras de amor e de afeto que, por um motivo ou por outro, não as dissemos, as entregamos agora no silencio de nossa contrição, como reverência a sua memória.
Nossa amiga-irmã foi recostar-se à sombra do mistério. E dela agora o mistério se ocupa mais de perto, acolhendo-a com sua doçura e com seu afeto. Ele a chama de seu pequeno lírio, objeto e sujeito de seu intenso cuidado. E lá, recostada à sombra do mistério, nossa saudosa amiga, à aurora derradeira, tranqüila e serena, é acalentada e acolhida.
02 junho, 2008
Celebrando a vida da irmã, aluna e amiga Laécia
Por Nelson Marriel
Ah, como é complicado falar de perda, discorrer sobre a morte. É muito difícil perder uma amiga, um ente querido. São tantos os sentimentos suscitados. Muitas das vezes nos vêm raiva, revolta; misturadas de saudade e solidão, tristeza e esperança. Francisco de Assis tem um texto que mexe comigo, que me toca e acende em mim esperança e alegria pela vida. Vem a mim o sentimento de gratidão a Deus por ter tido o privilégio de ter compartilhado alguns momentos, algumas palavras, alguns fragmentos de vida com a Laecia. O texto que me refiro são as palavras de Francisco de Assis ao se aproximar da morte, diz ele: Vem, irmã minha. Vem, irmã morte! Leva-me à fonte da vida! Conduze-me ao coração do Pai de bondade! Introduze-me no seio da Mãe de infinita ternura!
Porque temos tanta necessidade por explicar tudo? Explicar a morte, para quê? Há uma busca tão grande de nós humanos em dar razão a tudo, sem olhar o todo. A vida tem a sua própria razão. Viver e morrer fazem parte do todo e do tudo - ser e estar sendo. Parafraseando meu amigo e irmão Edson Almeida “O sentido, tão desejado da morte, como o da vida talvez esteja na junção das linguagens explicativas com as linguagens potencialmente emotivas. Ou seja, é momento de redescobrir o poder força das linguagens mítico/poético/artísticas, para falar das profundezas do ser, para chegar à dimensão do mistério de todas as coisas, de todos os homens e de todas as mulheres”...
É preciso chegar:
aquele lugar em que a vida se apresenta maior, imperceptível, distante, ausente de um esquema de entendimento sem compreensão, de conhecimento sem sabedoria. Aquele momento em que a vida se desprende daquelas representações que a vêem como um emaranhado de ossos, músculos, pele, secreções químicas, palavras, significados. É necessário abrir-se pro mistério.
a linguagem poética, que talvez seja a que permita atravessar por essa força expressiva das coisas, dos afetos, dos acontecimentos, dos encontros e desencontros na nossa vida e de nosso viver. Para perceber o outro, o eu, o tu, para perceber Laecia, para se despedir de Laecia.
É preciso chegar ao nome e descobrir que “Um Nome” pode revelar mais do que está visível, do que é imediato. O que está para além do corpo, da aluna, do ser, que foi e que é a Laecia. O amor, é como a rosa, não tem por quês, floresce porque floresce...
A Laecia é, foi, e sempre será... Laecia, aluna, mulher, amiga. Por isso é possível falar de espírito do enternecimento a espiritualidade do amor como sua dimensão misteriosa... “Mistério sempre há de pintar por aí”, como bem afirma o poeta. E por isso mesmo esse momento tem a ver com a possibilidade de fazer uma experiência expressiva da vida – falar sobre a Laecia, seus sonhos, seu desejo de estudar teologia, suas angustias, alegrias. É possível sorrir, lembrar, falar, dizer seu nome. Não se trata de negar a morte. Mas experimentar a dor. Dar graça pela vida, pela saudade e pelas feridas que ela abre e as novas possibilidades que elas propiciam.
Miguel de Unamuno, afirma: “Estou convencido de que resolveríamos muitas coisas se saindo todos à rua e exibindo à luz do dia nossas penas, que – talvez se revelassem uma só pena comum – nos puséssemos a chorá-las, a dar gritos para o céu e clamar a Deus. Mesmo que não nos ouvisse, nos ouviria, sim. A maior santidade de um templo é ser um lugar que se vai à orar em comum. Um miserere cantado por uma multidão castigada pelo destino vale tanto quanto uma filosofia.”
Conclui Unamumo: “Não basta curar a peste, é preciso saber chorá-la.”
É para isso que abrimos esse momento nesta celebração, nesse culto. Eis o sentido em dar ações de graças pela vida da Laecia, é preciso dar um sentido a essa dor, “é preciso saber chorá-la” - é preciso fazer da dor uma liturgia, é necessário um ritual para que a experiência da dor, do viver, seja possível. É preciso chorar a partida da Laecia para que possamos crer e dizer, que nessa experiência da morte a vida tem sentido. Vale a pena viver. É na experiência dessa saudade, no experimentar a ausência que todos nós, podemos dar graça. Só assim podemos louvar e nos alegrar pela oportunidade que tivemos de conviver com a Laecia. Mas do que isso, agradecer por ela estar dentro de nós e entre nós: em gesto, em cada palavra, em cada aluno, em cada professor, em nossas lutas, em nossos sonhos, em cada lembrança...
Esse é o momento de Um Pai Nosso, de uma oração, de um dizer, de um calar-se – é momento de silêncio... É momento de entrar em contato, de tocar e ser tocado pelo olhar uns dos outros, nos deixar tocar pelo espírito de Deus – Senhor da vida e da morte. É momento de dar sentido àquilo que talvez para muitos não tenha sentido - a morte. É tempo de mostrar os sentidos: os sentimentos, as emoções, as razões que a cabeça desconhece; ou quem sabe, é momento de dar sentido a tudo aquilo que muitas das vezes tentamos negar.
"Como não ter Deus? !
Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de agente ficar perdido no vai-vem, e a vida é burra. É o aperto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar... Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim, dá certo. Mas, se não tem Deus, então, agente não tem licença de coisa nenhuma! Se estou falando às flautas, o Senhor me corte. Meu modo é este."
Guimarães Rosa. Grande Sertões Veredas.
Ah, como é complicado falar de perda, discorrer sobre a morte. É muito difícil perder uma amiga, um ente querido. São tantos os sentimentos suscitados. Muitas das vezes nos vêm raiva, revolta; misturadas de saudade e solidão, tristeza e esperança. Francisco de Assis tem um texto que mexe comigo, que me toca e acende em mim esperança e alegria pela vida. Vem a mim o sentimento de gratidão a Deus por ter tido o privilégio de ter compartilhado alguns momentos, algumas palavras, alguns fragmentos de vida com a Laecia. O texto que me refiro são as palavras de Francisco de Assis ao se aproximar da morte, diz ele: Vem, irmã minha. Vem, irmã morte! Leva-me à fonte da vida! Conduze-me ao coração do Pai de bondade! Introduze-me no seio da Mãe de infinita ternura!
Porque temos tanta necessidade por explicar tudo? Explicar a morte, para quê? Há uma busca tão grande de nós humanos em dar razão a tudo, sem olhar o todo. A vida tem a sua própria razão. Viver e morrer fazem parte do todo e do tudo - ser e estar sendo. Parafraseando meu amigo e irmão Edson Almeida “O sentido, tão desejado da morte, como o da vida talvez esteja na junção das linguagens explicativas com as linguagens potencialmente emotivas. Ou seja, é momento de redescobrir o poder força das linguagens mítico/poético/artísticas, para falar das profundezas do ser, para chegar à dimensão do mistério de todas as coisas, de todos os homens e de todas as mulheres”...
É preciso chegar:
aquele lugar em que a vida se apresenta maior, imperceptível, distante, ausente de um esquema de entendimento sem compreensão, de conhecimento sem sabedoria. Aquele momento em que a vida se desprende daquelas representações que a vêem como um emaranhado de ossos, músculos, pele, secreções químicas, palavras, significados. É necessário abrir-se pro mistério.
a linguagem poética, que talvez seja a que permita atravessar por essa força expressiva das coisas, dos afetos, dos acontecimentos, dos encontros e desencontros na nossa vida e de nosso viver. Para perceber o outro, o eu, o tu, para perceber Laecia, para se despedir de Laecia.
É preciso chegar ao nome e descobrir que “Um Nome” pode revelar mais do que está visível, do que é imediato. O que está para além do corpo, da aluna, do ser, que foi e que é a Laecia. O amor, é como a rosa, não tem por quês, floresce porque floresce...
A Laecia é, foi, e sempre será... Laecia, aluna, mulher, amiga. Por isso é possível falar de espírito do enternecimento a espiritualidade do amor como sua dimensão misteriosa... “Mistério sempre há de pintar por aí”, como bem afirma o poeta. E por isso mesmo esse momento tem a ver com a possibilidade de fazer uma experiência expressiva da vida – falar sobre a Laecia, seus sonhos, seu desejo de estudar teologia, suas angustias, alegrias. É possível sorrir, lembrar, falar, dizer seu nome. Não se trata de negar a morte. Mas experimentar a dor. Dar graça pela vida, pela saudade e pelas feridas que ela abre e as novas possibilidades que elas propiciam.
Miguel de Unamuno, afirma: “Estou convencido de que resolveríamos muitas coisas se saindo todos à rua e exibindo à luz do dia nossas penas, que – talvez se revelassem uma só pena comum – nos puséssemos a chorá-las, a dar gritos para o céu e clamar a Deus. Mesmo que não nos ouvisse, nos ouviria, sim. A maior santidade de um templo é ser um lugar que se vai à orar em comum. Um miserere cantado por uma multidão castigada pelo destino vale tanto quanto uma filosofia.”
Conclui Unamumo: “Não basta curar a peste, é preciso saber chorá-la.”
É para isso que abrimos esse momento nesta celebração, nesse culto. Eis o sentido em dar ações de graças pela vida da Laecia, é preciso dar um sentido a essa dor, “é preciso saber chorá-la” - é preciso fazer da dor uma liturgia, é necessário um ritual para que a experiência da dor, do viver, seja possível. É preciso chorar a partida da Laecia para que possamos crer e dizer, que nessa experiência da morte a vida tem sentido. Vale a pena viver. É na experiência dessa saudade, no experimentar a ausência que todos nós, podemos dar graça. Só assim podemos louvar e nos alegrar pela oportunidade que tivemos de conviver com a Laecia. Mas do que isso, agradecer por ela estar dentro de nós e entre nós: em gesto, em cada palavra, em cada aluno, em cada professor, em nossas lutas, em nossos sonhos, em cada lembrança...
Esse é o momento de Um Pai Nosso, de uma oração, de um dizer, de um calar-se – é momento de silêncio... É momento de entrar em contato, de tocar e ser tocado pelo olhar uns dos outros, nos deixar tocar pelo espírito de Deus – Senhor da vida e da morte. É momento de dar sentido àquilo que talvez para muitos não tenha sentido - a morte. É tempo de mostrar os sentidos: os sentimentos, as emoções, as razões que a cabeça desconhece; ou quem sabe, é momento de dar sentido a tudo aquilo que muitas das vezes tentamos negar.
"Como não ter Deus? !
Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de agente ficar perdido no vai-vem, e a vida é burra. É o aperto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar... Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim, dá certo. Mas, se não tem Deus, então, agente não tem licença de coisa nenhuma! Se estou falando às flautas, o Senhor me corte. Meu modo é este."
Guimarães Rosa. Grande Sertões Veredas.
01 junho, 2008
Oração de Walter Rauschenbusch
Há pouco tempo participamos de uma conferência no Bennett com o teólogo metodista Helmut Renders. Ele falou amplamente sobre o teólogo batista Walter Rauschenbusch, muito conhecido por ter praticado e refletido sobre um evangelho com implicações sociais: social gospel. Com o objetivo de revelar ainda mais a profundidade e a espiritualidade deste teólogo, apresento uma oração de Rauschenbusch do livro "Orações Por Um Mundo Melhor" traduzido para o português pela editora Paulus, e que reflete a dimensão de seu pensamento como cristão:
"Ó Deus, nós te damos graças por este universo, nosso lar; pela sua vastidão e riqueza, pela exuberância da vida que o enche e da qual somos parte. Nós te louvamos pela abóbada celeste e pelos ventos, grávidos de bençãos, pelas nuvens que navegam e as constelações, lá no alto. Nos te louvamos pelos oceanos, pelas correntes frescas, pelas montanhas que não se acabam, pelas árvores, pelo capim sob os nossos pés. Nós te louvamos pelos nossos sentidos: poder ver o esplendor da manhã, ouvir as canções dos namorados, sentir o hálito bom das flores da primavera. Dá-nos, rogamos-te, um coração aberto a toda esta alegria e a toda esta beleza, e livra s nossas almas da cegueira que vem da preocupação com as coisas da vida e das paixões, a ponto de passar sem ver e sem ouvir até mesmo quando a sarça, ao lado do caminho, se incendeia com a glória de Deus. Alarga em nós o senso de comunhão com todas as coisas vivas, nossas irmãs, a quem deste esta terra por lar, juntamente conosco. Lembramo-nos, com vergonha, de que no passado nos aproveitamos do nosso maior domínio e dele fizemos uso com crueldade sem limites, tanto assim que a voz da terra, que deveria ter subido a ti numa canção, tornou-se um gemido de dor. Que aprendamos que as coisas vivas não vivem só para nós; que elas vivem para si mesmas e para ti, que elas amam a doçura da tanto quanto nós, e te serve no seu lugar, melhor que nós no nosso. Quando chegar o nosso fim, e não mais pudermos fazer uso deste mundo, e tivermos de dar lugar a outros, que não deixemos coisa algumas destruída pela nossa ambição ou deformada pela nossa ignorância. Mas que passemos adiante nossa herança comum mais bela e mais doce, sem que lhe tenha sido tirado nada da sua fertilidade e alegria, e assim nossos corpos possam retornar em paz para o ventre da grande mãe que os nutriu e os nossos espíritos possam gozar da vida perfeita em ti."
Por este mundo
"Ó Deus, nós te damos graças por este universo, nosso lar; pela sua vastidão e riqueza, pela exuberância da vida que o enche e da qual somos parte. Nós te louvamos pela abóbada celeste e pelos ventos, grávidos de bençãos, pelas nuvens que navegam e as constelações, lá no alto. Nos te louvamos pelos oceanos, pelas correntes frescas, pelas montanhas que não se acabam, pelas árvores, pelo capim sob os nossos pés. Nós te louvamos pelos nossos sentidos: poder ver o esplendor da manhã, ouvir as canções dos namorados, sentir o hálito bom das flores da primavera. Dá-nos, rogamos-te, um coração aberto a toda esta alegria e a toda esta beleza, e livra s nossas almas da cegueira que vem da preocupação com as coisas da vida e das paixões, a ponto de passar sem ver e sem ouvir até mesmo quando a sarça, ao lado do caminho, se incendeia com a glória de Deus. Alarga em nós o senso de comunhão com todas as coisas vivas, nossas irmãs, a quem deste esta terra por lar, juntamente conosco. Lembramo-nos, com vergonha, de que no passado nos aproveitamos do nosso maior domínio e dele fizemos uso com crueldade sem limites, tanto assim que a voz da terra, que deveria ter subido a ti numa canção, tornou-se um gemido de dor. Que aprendamos que as coisas vivas não vivem só para nós; que elas vivem para si mesmas e para ti, que elas amam a doçura da tanto quanto nós, e te serve no seu lugar, melhor que nós no nosso. Quando chegar o nosso fim, e não mais pudermos fazer uso deste mundo, e tivermos de dar lugar a outros, que não deixemos coisa algumas destruída pela nossa ambição ou deformada pela nossa ignorância. Mas que passemos adiante nossa herança comum mais bela e mais doce, sem que lhe tenha sido tirado nada da sua fertilidade e alegria, e assim nossos corpos possam retornar em paz para o ventre da grande mãe que os nutriu e os nossos espíritos possam gozar da vida perfeita em ti."
05 maio, 2008
Propostas da Chapa Kairos
- Propor atividades acadêmicas relevantes ao contexto da teologia com outras áreas do saber;
- Estabelecer vínculos entre a faculdade de teologia do BENNETT e outras faculdades de teologia com representatividade no cenário teológico nacional;
- Promover a mudança de foco de um curso de teologia voltado à instituição para uma graduação em teologia que se realize na discussão teológica, na produção acadêmica;
- Propor redução de mensalidade para os alunos de teologia;
- Propor reavaliação na recente instituição de doze créditos para a disciplina "Monografia II";
- Pleitear a adequação do corpo docente às disciplinas de formação acadêmica;
- Construir um BLOG permanente destinado às atividades do CATEO;
- Retomar os grupos de estudos, definindo sua estrutura para construção de futuras linhas de pesquisa;
- Estabelecer diálogo teológico focado no binômio Sociedade/Igreja, a fim de desenvolver uma teologia prática.
- Pleitear a concessão de bolsa de 50% ao aluno que permanecer no BENNETT, após haver concluído o curso de teologia, em um outro curso;
- Pleitear a concessão de bolsa de 30% ao aluno que permanecer no BENNETT, após haver concluído o curso de teologia, na pós-graduação(lato sensu)
- Propor a retomada das disciplinas optativas de teologia.
- Estabelecer vínculos entre a faculdade de teologia do BENNETT e outras faculdades de teologia com representatividade no cenário teológico nacional;
- Promover a mudança de foco de um curso de teologia voltado à instituição para uma graduação em teologia que se realize na discussão teológica, na produção acadêmica;
- Propor redução de mensalidade para os alunos de teologia;
- Propor reavaliação na recente instituição de doze créditos para a disciplina "Monografia II";
- Pleitear a adequação do corpo docente às disciplinas de formação acadêmica;
- Construir um BLOG permanente destinado às atividades do CATEO;
- Retomar os grupos de estudos, definindo sua estrutura para construção de futuras linhas de pesquisa;
- Estabelecer diálogo teológico focado no binômio Sociedade/Igreja, a fim de desenvolver uma teologia prática.
- Pleitear a concessão de bolsa de 50% ao aluno que permanecer no BENNETT, após haver concluído o curso de teologia, em um outro curso;
- Pleitear a concessão de bolsa de 30% ao aluno que permanecer no BENNETT, após haver concluído o curso de teologia, na pós-graduação(lato sensu)
- Propor a retomada das disciplinas optativas de teologia.
Assinar:
Comentários (Atom)